Com menta naquele lugar. É bom.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Real, imaginário e aquilo que mata a fome

Deus existe?

Não existe resposta exata para tal, porém há muita briga por trás disso. Uns temem, outros amam, outros o têm apenas como um pai. Tem também os que o odeiam, e aqueles que apenas acham que não existe.
Se existe ou não o problema é de cada um, a questão é, o que a igreja representa diante dessa dúvida. Jesus seria apenas um revolucionário que lutou contra a repressão romana, ou um santo? Deus criou Adão e Eva? Seria Adão e Eva os primeiros homens nascidos dos macacos? E o Big Bang? Ou não criou coisa alguma, por não existir?
Os fiéis se ajoelham, os cientistas brincam de sê-lo. Alias, não são só os cientistas que gostam de brincar de Deus, pois também os são, os poetas, romancistas, filósofos, dramaturgos, escritores em geral e não podendo esquece-los, os atores. Gostam de criar vidas, pessoas, lugares, coisas, passos...interpretar vidas diferente da vivida. Eu diria que talvez estes queriam(queiram) ter uma vida além da que vivemos, uma vida irreal( ou surreal), uma segunda vida, seja lá trágica ou feliz. Todos gostam de ter uma vida feita de fantasia. Que tenha algo em comum (realidade), mas que o deixa levar os pensamentos muito além das fronteiras da realidade(imaginário).
Seria essa fascinação toda, um ponto de partida para a dupla personalidade? Aquilo que alguns consideram doença, outros falsidade, e outros divindades.

Há 17 anos que me olhava no espelho, e via sempre algo mais que um simples rosto. Via dois. E nesse segundo rosto, não havia personalidade dentro. Era vazio.
Tanto observei, e tanto me questionei, o por que de tanto vazio, que inquieto com o complexo, inventei, com muito esforço, um alguém para aquele "eu", pois aquilo, como um todo, já fazia parte de mim.
Criei um inimigo. Ele me feria com a dor, Eu feria ocultando-o. Eu o usava para atrair, ele me usava para afastar. Travamos uma luta quase sem fim. Por um momento achei realmente que fosse sem fim.
Enfim, essa guerra travada dentro de mim, chegará ao fim, em breve. Tão próximo os dias de paz, que já sinto o cheiro de liberdade.

Mas o que tem a ver, Deus, dupla personalidade e guerra?

Talvez uma dialética. Os homens que queriam brincar de Deus (até então criado pela fantasia de outro homem um pouco mais velho), inventaram mentiras, mundos, verdades, fazendo de si algo que achavam que era maior que tudo, quando na verdade, os pés ainda estavam no chão (ou seja, a dupla personalidade) e fizeram grandes guerras, contra outros deuses para serem o verdadeiros deuses.

Se Deus realmente existe, é fato que qualquer homem da terra, seja lá qual for, é melhor do que Deus. Pois eu queria saber se Deus ja foi violentado, explorado, sofreu por amor, ou foi roubado. Gostaria de saber se Deus sabe o que é fome, e quanto pesa o quilo do tijolo, que é usado pra construir uma casa. Aliás, Deus suou pra criar o mundo?
Obviamente, pelo que diz todas as crenças, Deus tem poderes e criou o mundo com a força do pensamento. Diferente do homem que cria seu mundo com o suor, e o pior, que a grande maioria deles constroem mundos para outros Deuses bem próximos do Grande Deus ( assim podemos chamar aquele que comecei citando no texto), pois tamanha semelhança está na criação. Os deuses daqui constroem as coisas com a força do dinheiro (poder), sem mover um único músculo, parecido com Deus que construiu tudo com a força do pensamento (poder). Porém no mundo tem milhões de homens que realmente controem(concreto) o mundo com a força dos músculos e a do pensamento, e não detêem de nenhum poder, seja lá qual for ele. Esses sim, retifico-me ao que disse antes, acrescentando que além de melhores do que Deus, estes são mais fortes do que Deus (imaginário).



Termino assim questionando, Quem é Deus?

obs: Esse eu já fui... renunciei ao cargo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Café, cigarro e subversão


Desabotouo o botão da calça. A essa hora já não tem ninguém pra causar desrespeito. Caminho em busca de um café, supostamente meu subconsciente quer fumar, e me faz buscar um café pra pescar um cigarro. Já o conheço. Ele joga comigo. Eu deixo.
Queimando os lábios na cafeína, penso como a vida é um tanto escrota. Penso em dinheiro, penso no futuro, me imagino velho, acabado, sem ninguém, nem mesmos as ideologias. Por um momento, sozinho, semi-nu e com o café na mão, sinto medo. Vou buscar um cigarro.
A vida é escrota. Todo mundo sabe disso, porém uns nascem em berço de ouro e vêem a vida como algo escroto para aqueles que vivem na merda, esquecem que levam uma vida de merda. Outros se escondem em algum entorpecente. Vida colorida. Prefiro a vida em preto e branco, pois o sorriso nunca sai amarelo, e além do mais essa coisa de se embriagar sem fazer cara feia é coisa de fraco. Nunca gostei de ficar bêbado sem sentir o amargo da bebida. Engraçado que quanto mais fodidos estamos, mais rimos. A vida se associa muito com a cachaça. No começo fazemos cara feia, e ficamos embriagados. Ao longo do tempo, acostumados já, o amargo já não nos da uma careta, e cada vez mais precisamos tragar o forte álcool em grandes quantidades pra chegarmos na embriaguez. Coisas pequenas não nos surpreende, quando já temos o costume de ficar fodidos.
Nas escolas por exemplo, deveriam ensinar as crianças que a vida é uma ilusão e que é escrota. Não com esses termos. Talvez assim teriamos uma geração melhor. Não de canalhas desiludidos, mas uma geração que não tenha a ilusória ambição de vencer na vida. Vencer na vida é a propaganda de um Mc Donald's. A foto é uma beleza, quando tu compra, vê que não é lá o que esperava.
O cigarro acabou, e o café ficou frio no último gole. Espero que meus medos não virem realidade como tem acontecido. Medo do escuro, medo da solidão, medo de uma guerra nuclear.
Espero que a vida seja melhor para as crianças que crescem com tantas bobagens na cabeça. Mc Donald's, Xuxa só para baixinhos, vencer na vida...Neoliberalismo.
Não se assustem. É só uma prévia daquilo que um dia você vai encontrar, empoeirado, no sebo mais próximo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Hotel Paris


Era um domingo qualquer, tinha acabado de resolver umas coisas pelo centro. Por volta do meio-dia, um pouco sonolento, tomei rumo ao ponto, indo para casa. Acendendo um cigarro, resolvi ir costurando pelas ruas um pouco mais sujas e marginais daquele percusso. O centro absolutamente deserto. Entre suas esquinas, prostitutas velhas, cachorros(velhos), cachaceiros(velhos), turistas(velhos) e moradores de rua(o presente daquelas crianças era velho,fazendo delas velhas), todos alí perambulando por aquele lugar, que como stalingrado segundo Drummond, deus havia esquecido, ou virado o rosto para outro ponto do Rio(talvez de olho nas meninas do Leblon).
O dia era quente,eu suava feito jogador de futebol. Olhando para aquilo tudo como um filme. Os muros grafitados,pixados,desenhados, mijados, os paralelepípedos molhados, os meio-fios quebrados, as portas comerciais fechadas, os orelhões lotados de propaganda sexual, os copos de cerveja entre as pernas das putas. Cheias de papo pro ar. Cheias de poesia, (cheiras do pó e cia.).
Dobrando na esquina que me dava no João Caetano, olhei para o Hotel Paris. Prostíbulo antigo do Rio. Foi quando meus olhos bateram numa varanda do antigo antro e avistei aquela jovem ruiva, de cabelo curto que estendia sua toalha, só de calcinha e uma camisa "baby-look" branca. Dez passos olhando aquela perfeição, naquela direção, naquela perdição. Ela assustada, foi para dentro acoada, olhando cismada aquele jovem rapaz que a observava. Continuei caminhando, perdendo ao longe aquela varanda da visão, e quando eu já quase virava a última esquina, ainda intrigado olhando, ela reaparece na varanda, à estender aquela toalha, como se não tivesse acontecido nada, provavelmente de calcinha(sabe lá, pois do ângulo que eu estava, não dava pra ver suas pernas).
E assim voltei para casa, pensando naquela doce mulher. Como se chamava? Quantos anos teria? Por que se expunha daquele jeito? Onde estaria seu pudor? Como deveria ser o seu perfume? Quanto custaria uma hora em sua companhia? Seria ela uma doce menina, ou uma puta vadia?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tem que ter uma mulher ou uma causa pra eu me aventurar.


Nascido no Rio grande do sul, na cidade de Santo Ângelo, aos 14 anos já iniciava suas aventuras jornalísticas em Porto Alegre. Aos 18 foi morar no Rio de janeiro, em 1963 suas colunas já incomodava muita gente. Viajou mundo a fora(tanto exilado, como a trabalho).Dentre suas diversas obras, clássicos, muitos clássicos como "A milésima segunda noite"(2005) e "A acrobata pede desculpas e cai"(1966). Criticou, xingou, elogiou, riu e fez rir milhares de leitores brasileiros, por onde passou, seja em O Globo, Jornal do Brasil,O Pasquim, etc.
Faustin Von Wolffenbüttel, o grande Fausto Wolff. Hoje és tido como mito da literatura subjetiva( e "subversiva").
E pensar que tudo começou quando abri o caderno "B" do Jornal do Brasil alguns anos atrás. A partir dalí não comprei outro jornal. Fausto Wolff era o orgasmo de minha leitura matinal. Até cheguei a recortar e colecionar suas colunas, cada uma mais brilhante que a outra. tornou-se meu ídolo literário( no qual me inspirou a fazer jornalismo).
Autor da frase "Tem que ter uma mulher ou uma causa pra eu me aventurar", Fausto deu entrada no hospital no dia 31 de agosto de 2008(meu aniversário), dia que deixava alí encerrada suas entrelinhas. sempre sem perder o humor e a crítica. Nunca escondeu a posição de esquerda. Fausto veio a falecer 5 dias depois no Rio de janeiro, deixando milhares de orfãos de suas magníficas palavras. Assim deixo aqui meu adeus ao nosso querido Fausto...o Wolff é claro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Cafetina


Quente e amargo, não necessariamente amargo, mas sem açúcar. Não se consegue ver o fundo da xícara. Algumas colheres de açúcar, uma mexidinha, o deixando em redemoinho. Já não tão quente como antes, vou bebendo, tomando meu cafezinho (carioca é claro). Um cigarro para a vaso dilatação e para o tempo passar, relaxo.

Quando percebo, já vejo o fundo da velha xícara, logo uns goles depois (prazerosos até então) e este acaba.

Gostosa, séria, não necessariamente séria, mas fechada. Além dos olhos tristes e azuis, não consigo ver “nada”. Com algumas notas de pouco valor e um pouco de lábia a deixando atiçada e sedutora. Já não me parece tão gostosa, e vou beijando, apalpado seu corpinho de ninfa. Quando já me dou conta, já geme em meus braços como uma chula indefesa. Na cama és fria do corpo quente (não reconheces o talento que tem). Um pouco mais forte, mais intenso e temos o orgasmo (ou talvez só eu tenha tido). O velho cigarro pra relaxar e como o café de algumas horas antes, tudo acaba. Tão rápido, tão mecânico, tão bom.

Tomar um café e tragar um belo cigarro é como transar com uma prostituta. É tão bom quanto. Café e nicotina, combinação perfeita, o que tenho o carinho de chamar de “cafetina”(um tanto irônico). Tamanha semelhança presente na combinação “sexo mais dinheiro”. Combinações nada saudáveis, mas que nos rende um bom passa-tempo e até um bom texto.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bianchi e os valores capitalistas.

[Matéria publicada no jornal Inverta, n°426. Agosto de 2008.]


O que seria inviável pra você, caro leitor?

Ter relações sexuais com seu patrão para não ser demitido talvez, mas não foi o caso do personagem fictício de Sergio Bianchi em “Cronicamente Inviável”.

O roteiro foi escrito por Gustavo Steinberg e Sergio Bianchi no qual se originou uma serie de frases polemicas, como “(...) tudo que é exclusivamente nacional é motivo de orgulho. futebol, café, mulata, injustiça social, crianças mendigas na rua...”, frase no qual é dita por Luis (Cecil thiré) dono de um refinado restaurante de São Paulo.

Assim como segue, o filme conta um pouco da vida de seis personagens de classe média e suas dificuldades mentais e físicas em meio aos problemas da sociedade, como cita o diretor.

Alfredo (Umberto Magnani) é um escritor que está realizando um passeio pelo país, buscando compreender, os problemas de dominação e opressão social. Após uma caminhada em meio ao carnaval baiano ele cita que o “projeto baiano” é o mais genial, pois enquanto o capitalismo e o socialismo tentam mobilizar as massas, o “projeto baiano” consegue distrair o povo dos problemas sociais. Adam (Dan Stulbach), garçom recém chegado do Paraná se destaca dos demais empregados do restaurante de Luis por sua descendência européia, tanto por seu aspecto físico, quanto por sua boa instrução. Maria Alice (Betty Gofman) é uma carioca classe média-alta que está sempre preocupada em manter o mínimo de humanidade na relação com as pessoas de classe mais baixa, e é casada com Carlos (Daniel Dantas), um homem com uma visão pragmática da vida, que acredita na racionalidade como forma de tirar proveito da bagunça típica do Brasil. Amanda (Dira Paes), gerente do restaurante de Luis, é uma pessoa cativante, com um passado incerto, encoberto pelas várias histórias que costuma contar para os amigos e os refinados clientes do restaurante.

O filme que foi lançado em 1999 ganhou diversos prêmios como o de melhor filme do ano na APCA e melhor longa no Festival de Buenos Aires e o prêmio especial do júri jovem em Locarno.

Sergio Bianchi é famoso por sua obra na questão da luta de classes bem retratada no cotidiano do Brasil. Em “Cronicamente inviável” cenas como uma briga entre um líder camponês e um latifundiário, moradores de rua que brigam entre si,para comer o lixo do restaurante e que são tratados como cães, crianças em trabalho escravo, abuso de poder em jovens negros e freqüentes discussões de membros da classe média sobre o comportamento social das classes menos favorecidas são bem exploradas pelo diretor, que em todos os seus filmes critica arduamente o capitalismo no nosso país.

Cronicamente inviável é realmente “um soco no estomago” dos capitalistas, expressão famosa, feita pela critica.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Amanhã vai ser outro dia.


Povos distintos, costumes distintos, diferentes destinos. De um lado uma selva de pedra, onde as "feras" dominam, exploram e matam o homem. Canibais e Bichos de sete cabeças lutando pelo topo da montanha. Do outro lado, a selva propriamente dita, com homens ajudando outros homens, homens lutando contra as feras que causam mal à outros homens. Lutando por uma montanha sem pico.

A concepção de que a guerrilha da FARC é um conflito politico e não um grupo terrorista narcotraficante, é pouco conhecida no mundo pelo simples fato da conspiração da mídia burguesa atuar nas propagandas anti-comunistas. Assim como sofrem tambem esse tipo de descriminação o MRTA, ELN, EZLN, entre outros. Assim como eram rotulados os movimentos brasileiros de resistência à ditadura, como VPR, MR-8, ALN...Todos terroristas segundo a mídia.

Ingrid Betancourt virou agora objeto anti-comunista. Mas vejamos, quantos inocentes estão no porão de guantanamo? sofrendo torturas, doenças, sem liberdade, sem suas famílias...quantos estão morrendo agora lá?
Quantos morreram nos porões do DOPS? e até hoje não se tem notícia de suas sepulturas[clandestinas até então].
Quantos soldados das FARC estão agora sendo torturados, assassinados, presos?

A FARC só quer seus filhos de volta. Assim como os familiares de Ingrid.

Quem é o mocinho no jogo?

A FARC, Uma organização política que visa a liberdade, a paz e o socialismo, ou o governo colombiano, governo corrupto, repressor, fascista, fantoche dos EUA?

Amanhã vai ser outro dia.


Como disse Chico em 'Apesar de você' :

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Três Segundos, Apenas.



Um dia muito quente. Cada Cinco passos era um trago. Um dia normal. Na boca, o gosto ainda doce do café.

Chego ao ponto da condução. O cigarro ainda no meio, o cabelo bagunçado, rosto suado e o livro na mão. A condução quase cheia, dou a última tragada e entro, fechando a porta. Quando me acomodo no assento, eis que surge o encontro não marcado.

Alguma hora atrás me sentava no "Mainstreet" com meu amigo Gabriel para tomar um café à carioca e observar as belas moças que passavam. Na mesa Rubem Fonseca nos acompanhava passivamente com o cigarro e o café. Por um momento reclamei por ter trazido do trabalho o livro. "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos". Eu o trouxera para terminar as últimas vinte páginas, mas percebi, que em casa não ia ler. Continuávamos a beber nosso café e depois de muito papo pro ar, fomos embora.

O motorista da condução fumava seu cigarro, quando cheguei, logo tive tempo de terminar o meu. vi algumas mulheres dentro da condução, o Rubem na mão suada, aos poucos escorregava. Tinha sido um dia muito quente.

O motorista entrou no veículo, e então dei minha última tragada. Entrando na condução ainda com a fumaça no pulmão, soltei a fumaça já sentado, mirando a janela pra não incomodar os passageiros. a pressão arterial ainda forte, quando por um instante vejo uma mulher. Eu congelara ali mesmo.

Cabelo cacheado, o ruivo intenso, preso num "coque". A pele fina, algumas sardas, o nariz levemente fino, os olhos expressivos, no momento, tímidos, tentando achar alguma saída em sua bolsa. Procurava alguma coisa. a boca bem traçada, com algum batom leve.

Meus olhos aos poucos iam descendo até seus seios, também com algumas sardas, os seios médios, o vestido florido. Meus olhos desceram mais um pouco, e quando vejo, estou olhando entre suas pernas, no momento, consideravelmente separadas, dando-me uma visão privilegiada.

A condução, uma Kombi, devia ser uma 2005, os bancos um de frente para o outro, com capacidade cada, de quatro pessoas, espremidas. Um pequeno lugar, no qual olhares são trocados diariamente. um lugar um pouco constrangedor.

Rapidamente, fugi o olhar daquela perdição, uma atitude muito vulgar para tal mulher tão elegante. Olhei a paisagem, mas o pensamento ainda se encontrava naquela linda mulher. Percebi que ela olhava o Rubem no meu colo. por um momento hesitei em encará-la.

Por volta de Um ano, eu a vi pela primeira vez, em passos que pareciam deixar poesia por onde pisasse. Uma rosa na mão esquerda, a outra segurando a pequena bolsa, e o vestido preto. Foi amor a primeira vista. Até porque só poderia ser a primeira, pois a segunda eu perdi com Três anos de idade num acidente. Depois desse dia, eu sempre que via a comia com "meus olhos", fazendo assim, ela perceber minha admiração.

Um dia ainda cheguei a por uma poesia em sua porta. Desde novo, eu sempre vivi muitos amores platônicos. É o meu bem, é o meu mau.

Conforme a Kombi seguia seu rumo, o lugar ia tomando por um constrangimento, por minha parte. Já não conseguia ficar alguns segundo sem olhar entre suas pernas, e o mais impressionante que possa parecer, ela em nenhum momento, fechou as pernas. Parecia que queria que eu ficasse ali, preso naquela situação. E conseguiu. meus olhos cada vez mais presos naquele vão, onde o que eu queria ver, mostrava-se mais nítido, e assim eu concluindo ali mesmo, que a calcinha dela era branca. Ao contrário do que parece, em nenhum momento, eu fiquei excitado a ponto de meu objeto sexual, ficar ereto. Mas cada vez mais eu suava, cada vez mais nervoso, constrangido, e por um momento, sinto uma enorme graça na situação. Pensei em Deus. Deus me deu a oportunidade de ver seu sexo, eu não podia desperdiçar. Talvez fosse ela, Deus.

A viagem que era feita dentro de Cinco minutos, desta vez parecia ter sido feita em Trinta minutos. Logo me dei conta do que estava fazendo, e tentei olhar nos seus olhos. Tentar trocar um olhar, mas seus olhos compenetrados na paisagem. Obviamente estava disfarçando uma distração. Qualquer mulher em seu lugar, sentada de frente para um homem, fecharia imediatamente suas pernas. Ela era diferente. Ela queria brincar comigo.

Tentei também disfarçar. Olhar a paisagem. Naquele instante já achava a situação normal. Havia me adaptado. Mas a graça era tanta que para não demonstrar que a qualquer momento poderia abrir um sorriso bobo, mordi os lábios, tentando conter a graça.

Toda vez em que estou num lugar no qual, momentaneamente perfeito, eu sinto um desejo imenso de que se acabe logo. Fico ansioso pensando no depois do acontecido. A graça de tudo está na nostalgia de poder lembrar os fatos. Em shows, festas ou fodas, sempre foi assim. viver o momento pensando ansiosamente no depois. E naquele momento era o que mais queria. Chegar à porta do meu condomínio.

Assim, com a condução entrando em minha rua, hesitei em dizer ao motorista rapidamente o nome do meu condomínio. Queria que ela ouvisse minha voz grave. Seduzi-la com o pouco que tinha, além do Rubem, em meu colo. Se é que ela gosta de literatura.

A condução parou em frente ao meu condomínio. Desci primeiro, e paguei o motorista. Ela logo foi à frente. Adiantei os passos e passei por ela, calculando ali, um gesto obvio de cavalheirismo. Abri a porta e fiquei esperando ela passar. Foram os Três segundos mais longos da minha vida. Nem estar em cima de um touro, nesses rodeios, por Sete segundos, foi tão longo quantos os Três segundos em que ela vinha em minha direção, olhando timidamente olhando para o chão.

Levando meus olhos aos seus pés, fui subindo o olhar devagar, até seus seios, assim chegando até seus olhos. Em minha mente, eu imaginava o que ela fosse dizer. "Obrigada".

Vi sua boca avermelhada abrir num movimento em câmera lenta, e pronunciar o que esperava.

Enquanto pronunciava, um rápido olhar. Tentou fazer de a situação parecer algo normal, mas foi péssima na atuação.

Segui em sua frente para dar passagem ao outro portão, mas seus passos foram em direção à portaria. Terminava ali minha relação com aquela linda mulher.

Caminhando em direção ao meu prédio, pude felizmente abrir o sorriso bobo. Há tanto tempo não me sentia tão feliz com tão pouco. Deus queria me ver feliz. Como só ele pode fazer, calculou tudo perfeitamente para que se fosse uma bela trama. Ao mesmo tempo em que o livro em meu colo dava título à aquela situação, "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" , dava também pista para ela de quem era o poeta que escrevera a poesia.

Durante o resto do dia, a imagem daquela linda mulher, que eu apelidara de "Ruivinha" se manteve em minha mente até que eu entrasse no sono e dormisse. E é com prazer que faço agora uma homenagem ao grande Rubem Fonseca, deixando aqui o último verso de seu livro.


"Tudo era fantasia, um sonho, um mundo de vastas emoções e pensamentos imperfeitos."

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O cinema e as flores.


Domingo, dia 11 de novembro de 2007.

Acordo com o telefonema de minha tia dizendo que minha prima já estava no banho e que em breve, ia se encontrar comigo. Acordei desesperado, direto pro banheiro, tomei um rápido banho, me arrumei, fiz um copo de Nescau, com uns pães de queijo no forno. Bebi o nescau antes que os pães ficassem prontos, e eles ficaram prontos, mas já tinha perdido a fome e voltei pro banheiro, escovei os dentes, peguei a identidade e fui pra frente do meu condomínio.
Tava nublado o dia, e senti um leve frio, voltei correndo para casa, enquanto minha prima me esperava no banquinho de frente pro prédio, e busquei o cigarro.quando voltei, lembrei que ainda estava com frio e voltei pra casa pra pegar minha jaqueta de tenente. Num clima de descontração, enquanto esperávamos uma amiga de minha prima, um grito ecoa entre as àrvores do local, e avisto um besouro na minha jaqueta, dando-lhe um chute no qual "voa-voa-voa" besourinho. A menina chega, e pegamos uma carona com o sogro desta.
Ao chegar, uma multidão de jovens com camisetinhas de cursinho de vestibular coloriam a rua do local da prova. Nervoso(tenho um grave problema com multidões), imediatamente acendo um cigarro, aos olhares da "playboyzada". Enquanto minha prima, cujo o nome é Flávia, conversava com uns amigos do cursinho, eu pensava no que estava fazendo ali, talvez o único que até o momento não tinha pêgo num livro pra estudar, e ainda estava ali, de peito aberto pro desse e viesse, e logo, acendi outro cigarro.
Tinha sido meu primeiro vestibular. As duas últimas provas que tinha feito era da FAETEC e da Escola de música Vila-Lobos. Ansioso, apreensivo, nervoso, e calmo ao mesmo tempo. Muitas gurias bonitinhas, e todas me olhavam com cara de espanto, por causa da minha jaqueta. Com menos de 5 metros da porta, acendi meu terceiro cigarro, desde que tinha chegado ali, eu sabia que não daria tempo pra fuma-lo, mas mesmo assim decidi acender, pois quando se está nervoso, qualquer lugar onde você pode se esconder, é válido. E naquele estado, o cigarro era meu esconderijo.
Cheguei na portaria, apaguei o cigarro no muro e o joguei no chão, tinha dado menos de cinco tragadas no coitado. O nervosismo só aumentava, minhas mãos suavam, uma rápida vontade de cagar passou como flash, e me despedi de minha prima no qual ia fazer prova numa sala diferente, infelizmente. Subi as escadas tenso. Nunca tinha estado ali. Com o papel de inscrição na mão fui me teleguiando até minha sala. ao chegar na porta, uma guria com uma camisa da UFRJ peguntou se eu já tinha ido ao banheiro e bebido água. por um momento refleti se era melhor eu ir no banheiro antes da prova, até porque seriam cinco horas de prova, e aquele flash aos pisar na escada era um sinal, que coisa boa durante aquelas cinco horas não viriam. Olhei em minha volta e avistei um bebedouro, bebi uns goles d'água e entrei na sala. tentei não pensar no pior, e esqueci do flash que senti ao pisar na escada.
Deixei minha identidade com uma outra guria dentro da sala e peguei os cartões resposta, olhei em minha volta e todos me olhavam. Era minha jaqueta. Avistei um lugar na última carteira da segunda fila. Só senta nas últimas carteiras quem são os mais inteligente( para que ninguém cole de você), e os mais burros (para que você cole de todos sem ser visto).
Eu não tinha material pra fazer a prova. Tinha uma caneta, e nem sabia se ela estava boa ou não. quando estava na parte de fora, fumando meu cigarro, minha prima e sua amiga me emprestaram uma caneta com uma tampa de sapinho, um lápis e uma borracha muito pequena. Preparei meu fragmentado material, e fiquei olhando pro nada esperando a maldita prova, e enquanto isso a sala enchia.
Todos que entravam na sala, pareciam muito inteligentes, com suas camisas de cursinho de vestibular, e eu lá no fundo, com minha jaqueta de tenente e suas três estrelas no ombro. Em minha volta, muitas gurias bonitas, se preparavam para a prova, todas com algum tipo de comida em cima da mesa. Barras de chocolate, biscoitos, garrafinhas d'água, doces entre outros aperitivos. Foi quando por um momento olhei o trakinas em cima da mesa de um rapaz. Trakinas me lembra chocolate, que me lembra sede, que me lembra água, que lembra que depois de dez minutos comendo trakinas e bebendo água você sente dor de barriga, e foi desse pensamento filosófico-recordativo, que me veio o flash pela segunda vez.
Com um rádio de patrulha na mão, me entra uma gorda, parecia ser fiscal, com um saco lacrado na mão gritando num tom imperativo "olha, as provas estão lacradas". Só faltava terminar a frase com um "porra!". Eu estava esperando por aquilo, mas não foi como eu queria. Ela deixou as provas com as assistentes bonitinhas e saiu da sala. Se quer olhou para aqueles pobres vestibulandos.
Enquanto uma das assistentes entregava as provas, outra escrevia no quadro numa letra muito feia, que não era permitido copiar o gabarito da prova. Eu tava pouco me fudendo para tudo aquilo. Eu queria sair daquele inferno o mais rápido possível.
Pego minha prova, e inicialmente não sei o que fazer. Tento ler, mas leio, leio, leio e na verdade não leio nada, estava viajando. Dentro de mim mesmo, dou um tapa na cara da minha inconsciência e acordo. Leio a prova. Prefiro fazer as questões de biologia. Não entendo porra nenhuma que ta escrito. Nunca tinha estudado aquilo. Repito o enunciado, como havia aprendido com os amiguinhos do cursinho, e tento enrolar na questão. Me dou conta que estaria fudido. Parto para as questões de português, e quando percebo, perco a borrachinha. Só pra me fuder.
Nunca vi uma prova de português tão difícil na vida. O tema falava sobre cinema. Por acaso, algo que adoro. o Flash volta. Olho pro lado e uma menina ja estava fazendo a redação. Achei melhor deixar a redação por último, pois eu tinha cinco horas. Parto para as questões de matemática. Olho pra sala e incrívelmente todos olham para suas provas concentradíssimos. Ninguém olha pro lado. Só eu. Fico com medo, sinto um grande frio e me vem o Flash. Achei que estivesse surtando, mas percebi que o frio que sentia era do ar condicionado na sala. Me concentro na prova, e quando me vejo, estou pensando na festa que tinha ido no dia anterior. Tinha enchido a cara no aniversário de um amigo, até cantei mensage in a bottle, do the police com uns amigos, e toquei baixo em algumas músicas. Volto a fazer a prova.
Química me preocupa. Não tinha nada na prova que eu sabia. Deixo pra depois. Parto pra redação. Já que tinha perdido a borracinha, eu nem no rascunho poderia errar, porque assim, não poderia apagar, e se eu rasurasse, eu poderia me perder, e estragar a redação na hora de passar à limpo. Começo a relacionar os temas que iria falar na redação. A redação era sobre cinema e a questão social. Moleza pra mim.
Começo a redação escrevendo na mesa, falando de chaplin e o cinema mudo. Misturo um pouco de marxismo barato, faço uma sátira com estações do ano e guerras mundiais, e finalizo o segundo parágrafo com cinema porco-hollywoodiano.
Parto pro terceiro parágrafo ressaltando Glauber rocha e o cinema novo. Achei que poderia ganhar pontos, falando de algo tão pouco conhecido e valorizado no cénario cinematográfico nacional. Aponto as "pornô-chanchadas" como uma tática da ditadura militar de apaziguar o clima tenso do cinema novo e termino o terceiro parágrafo com verões e invernos de guerras.
Volta a falar de nordeste seco, miséria e repressão com Sergio bianchi e dou uma leve pitada de sal com o velho marxismo barato, terminando assim o quarto parágrafo.
Concluo a redação relacionando a importância do cinema nos momentos de tensão política, e as estações do ano com os conflitos ideológicos. e finalmente passo a limpo a redação.
Volto para a questão de química, e começo a tentar colar alguma coisa. O meu maior medo, e o de todos naquela sala, era de zerar a alguma matéria, e por consequência, a prova.
Consegui colar algumas coisas, mas ainda era pouco. Uma das assistentes avisa que falta uma hora para o término da prova. Bate um desespero. Nem dos Flashs eu lembro mais. Começo a passar a limpo todas as respostas e invisto na malandragem, eu tinha que conseguir alguma coisa.
A assistente anuncia quinze minutos para o término da prova, e eu desesperado, arranjo um nome para minha fantástica redação: "O cinema e as flores".
Uma menina que estava do meu lado foi a cobaia. tudo que via eu copiava, foi ai que descobri que apesar de estar usando óculos, eu estava ficando cego. Percebo que a assistente me vê colando. ela olha pra mim muita vezes, e eu a encaro, como se nada tivesse acontecido. Bate um arrependimento ao olhar pra ela( a assistente). Nunca olhe nos olhos do professor quando for colar, senão ele vai perceber que você ta desesperado, e ta tentando colar. Por alguns segundos reflito sobre o fato da assistente estar me olhando demais. Imagino primeiramente na cola, depois penso na jaqueta, e por último penso na hipótese de que ela esteja me dando mole. Continuo tentando colar. Ela já sabia que eu estava colando, e não esboçava nenhuma reação. ela tava deixando eu colar, e numa encarada, ela esboça um sorriso tímido de lado. Fico com medo. Ou ela ia me fuder a qualquer momento, ou ela gostou de mim. Ou de minha jaqueta. quando faltava cinco minutos para o término, a menina do qual eu colava se levanta, e eu respectivamente na cara de pau, me levanto. Entrego a prova e a guria que me encarava me pergunta o nome:

-Diego.
-o que?
-Diego cesar.respondo.

Enquanto isso a outra assistente procurava minha identidade num amontoado de personalidades sobre papel verde. Ela acha e antes que ela olhasse minha foto, eu pego de sua mão e dou as costas. Saio da sala apreensivo. Bebo um pouco de água, e desço as escadas. Pego meu maço e há um único cigarro. bate uma tristeza. Não sabia se era porque tinha apenas um cigarro ou se era pela prova. Um sol forte bate nos olhos, o suor desce e acendo o cigarro. Esperava por minha prima ao lado do portão. Todos me olhavam. Era a jaqueta. Vejo uns rapazes fazendo um comentário de mim, eles chegaram a disfarçar, mas foram incopetentes. Eu percebi. Vejo que minha prima não ia aparecer tão cedo e vou para a casa da minha vó, que era perto. Olhando minha imagem refletida nos vidros dos carros, com o cigarro na boca e a certeza que tinha me fudido na prova.