Com menta naquele lugar. É bom.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vermelho Cor de Sangue - Parte 11

Uma semana. Maços e maços, marcas de uma semana vazia. Maços vazios. Carlos ainda se sentia angustiado por ter sido jogado fora um quadro que, pintado por seu amor, fôra rejeitado pelo mesmo. Além da sociedade querer impor uma vida a ele, na qual rejeitava até os fios de cabelo em sua cabeça, esta mesma também o reprimia. Num estado de revolta e baixo estima, sentia vontade de cuspir nos quadros, na casa, em tudo que fazia parte de sua vida, inclusive em Constanza, mas não tinha coragem. Foi ao banheiro e cuspiu no espelho, em seu reflexo. Era uma forma de rejeitar a arte, ou ao menos seu criador. Incomodado com a vida, a que não queria levar e a que levava, decidiu fugir, arranjar outro e qualquer ambiente para refletir. Algum lugar que lhe desse a sensação de novo, algo que o fizesse sentir uma pessoa melhor. Queria um alívio imediato.
Foi à banca de jornal, comprou cigarros. Nem tão forte, nem tão fraco. Entrou em ruas que não costumava passar, observou lugares que passavam despercebidos e que sempre estiveram ali, sem que ele desse sequer uma única olhada. Cumprimentou pessoas que não conhecia, jogou guimbas de cigarro em meio-fios que até então não existiam.
Cansado de procurar, entrou num bar e pediu uma cerveja gelada. Bebendo no balcão, viu uma mulher sentada em uma mesa, sozinha, bebendo água. Reparou naquela mulher atraente e em seguida desviou o olhar para a rua. Sentiu um olhar recíproco pelo reflexo. Os olhos azuis dela contornara o corpo bruto e tenso de Carlos.
Antes que ela desviasse o olhar, Carlos olhou-a em seus olhos, a encarando por alguns segundos e consequentemente recebeu um sorriso pela ousadia da intrigante mulher.
Em seguida ela se levanta com um lenço vermelho na mão, vai até um espelho no fundo do bar e começa a vestir o lenço na cabeça. Enquanto vestia o lenço que lhe dava o ar de camponesa européia, o desejo dele era beijá-la do cangote até seu limite, pegá-la no colo, levá-la à cama, despi-la e foder. Queria transformar o tédio em gozo e depois ouvir quieto, deitado com a cabeça em seus seios os desabafos da jovem guria. Mas para seu tormento, ela vestiu o lenço, ajeitou a franja e saiu do bar, o deixando sozinho, passivo e quieto, se remoendo naquele marasmo de boteco.
Pequena, meiga, de lábios bem hidratados e pele lisa, como a de uma menina, sem rugas, sem cicatrizes, ou sequer marcas de sofrimento qualquer. Tinha olhos azuis e sinceros, como um novo mar para navegar, o mar que precisava. Um mar sereno, diferente do estado tempestade que se encontrava seus olhos cansados. Aos poucos perdia em cada golada no copo de cerveja as efêmeras e pequenas lembranças da jovem de lenço na cabeça. O álcool apagou tudo, inclusive a tensão que o levou ao bar, e também seu passageiro tesão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 10

Haviam feito amor na poltrona. Depois de gozar, Carlos se dirigiu ao banheiro para lavar seu pau, e ela na sala, nua, a sua espera. Quando volta, a vê sentada no chão, ainda nua, com os pés dentro da lata de tinta. Brincando com os pés num balde de tinta vermelha. Aquela cena o excitou, e logo foi se sentando atrás da guria, a deixando entre suas pernas. Começou beijando-a no pescoço, a deixando excitada, enquanto as mãos massageavam suas costas, a deixando relaxada. depois levava suas mãos um tanto brutas às coxas suaves descendo até a virilha, apertando a carne macia até sua boceta, tirando da guria depois de rápidos suspiros, um gemido.
Enquanto a mastubava, ela mexia os pequenos pés dentro da lata de tinta, transbordando uma pequena quantidade, conforme o prazer que sentia. Excitado ao ver aqueles pés-vermelho-inquietos levantou-se, pegou um quadro limpo e colocou ao alcance de seus pés. Pôs-se de frente à Constanza, que sentada e com os pés ainda na tinta, agora fazia fazia sexo oral. Carlos agarrava em sua nuca, trazendo a cabeça de Cons para seu corpo, e num instante de dor, tesão e espasmo, Constanza derruba a lata sobre o quadro, e começa a esfregar os pés sobre a tela. Carlos cada vez mais excitado agarra com mais força os cabelos embaraçados da jovem guria, e esta por sua vez movia os pés como numa dança, em que o que regia sua pernas era algo além de sua consciência. Agora com um pouco mais de dor e tesão, consequentemente, Carlos gozava nos seios de Cons, que de olhos fechados, jogava a cabeça para trás e ouvia os gemidos de Carlos, tirando os pés banhados de tinta do quadro até então pintado.


Enquanto Carlos preparava um café fresco e Constanza limpava a casa, ele pensava no futuro. Aquela menina que a pouco era um mistério, um sonho, agora, alí em sua frente, era concreto.
Sentados perto da varanda, olhando a rua e tomando café pela tarde, Carlos olha para sala e sente falta de algo.

- Cadê o quandro que tu fez com os pés?
- Ah ficou horrível... - Responde ela, sem dar muita atenção.
- Cadê ele?
- No lixo.

Carlos olha com raiva para Cons e num tom bem mais alto reprime - Porra, tu é maluca? - E ela sem muito entender, responde perguntando e se indagando ao mesmo tempo - Por que? - Carlos corre até a porta, mas desiste de ir até a lixeira do sobrado, bate violentamente com as mãos na porta e grita - Porra! - não acredita no acontecido.

- Calma amor, não gostei dele... Você gostava dele?
- Porra tu não sabe o que é arte, caralho?
- Olha como você fala comigo!
- Foda-se!
- Porra parece que você prefere o quadro mais do que eu. Tu é viado? - Pergunta Cons um tanto perplexa.
- Ignorante. - Resmunga.
- Enfia no cu então. - Pegando sua bolsa, com os olhos vermelhos, anda até a porta e não olha para trás.

Carlos vê a guria indo embora e não diz nada. Sua raiva é maior que o receio de perdê-la. Dentro de sua cabeça, a xinga com todos os palavrões que conhece. Quase chora, bate, grita de dor e ódio. Respira. Olha para o nada, olha para tudo, e toda vez que não vê o quadro, pensa nele dentro do caminhão de lixo, junto com outros lixos. Comida, brinquedo quebrado, papel rasgado, vidro e plástico, comida estragada. Quase chora, mas não chora. Deita um tanto exausto, vira-se de um lado para o outro, com a cabeça quente. Aos poucos vai ficando mais maleável e adormece. Toda vez que Carlos que tinha algum problema na cabeça, quando podia, dormia, assim acordava e esquecia ou pelo menos já não o abatia tanto assim. Talvez aquilo fizesse mal dalí a algum tempo, mas não se importava. O imediato era esquecer que uma genialidade tinha ido para um lixão qualquer, com tantas outras coisas. Sua obra enfeitando lixo. Lixo dos ricos, lixo dos pobres, lixo de todos, e dos ratos. Seu lixo enfeitando a obra.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 9

Pedaços de unha jogados na camisa. O tédio lhe dava, enquanto angústia, ansiedade por aquilo que queria fazer, porém que não existia, ainda. Dentro de sua cabeça uma imensidão inóspita, onde seus temores passavam como cometas, atingindo o gozo que tinha de ser feliz por ser feliz. E a felicidade, enquanto droga, exigia dele o esforço para além da simplicidade. Ser feliz agora siginificava não mais um sentimento e sim uma sensação efêmera, material e um tanto fria.

Sozinho, já bebia meia garrafa de café e nem se dava conta do quão rápido a semana passava, pois já era quinta-feira. Ao longo da semana, trocaram afagos pelos cantos da casa. Para qualquer que fosse o lugar que olhasse, lembrava-se dela. A presença da guria já se tornara insaciável.

Raia o dia. Mais um dia. Sexta-feira. Luz, calor, banho, roupa, rua, pão, primeiro cigarro, café, momentânea necessidade de trabalhar e logo em seguida, monotonia.
Se olha no espelho e pensa na vida a seguir. Vai ao Centro do Rio tomar um café.
Andando de cabeça baixa, cigarro na mão e pensando nos paralelepípedos aos quais pisar, depara-se com a confeitaria Cavé. Entra, pega comanda, olha-se nos espelhos, senta-se e pede ao invés de um carioca, como de praxe, um capuccino. Enquanto bebe, observa as pessoas ao redor. Um casal de velhos silenciosos. O senhor com um suco amarelo, aparentemente de maracujá, e a velha com um café e um croissant no prato, com um pouco de farelo nos cantos da boca pintada de vermelho. Em outra mesa uma jovem menina, aparentemente 16 anos, lendo um livro em francês com uma xícara na mesa e um copo d'água pela metade. Numa outra mesa um homem engravatado conversa com olhar de desejo e maldade para uma mulher que alisa a mão do mesmo, também vestida socialmente. Além do garçom que o olha com a cara de quem não gosta nem um pouco do trabalho.
Noite, trânsito, gente, frio, outro maço, monotonia. É profundamente agoniante o calor da depressão que carrega Carlos entre os ternos ambulântes do Centro do Rio. Pega o bondinho e volta pra casa.
Antes de pegar no sono, começa a divagar deitado na cama. Vê o quanto a vida não tem nada a lhe oferecer a não ser uma vida feliz e fútil com mulher, filhos e correntes em forma de gravata. Sente um forte repúdio ao que o mundo quer que se submeta. Pensa em Cons, e fica de pau duro ao lembrar das horas de amor. Ao mesmo tempo percebe que a vida não é nada. Comer, beber, rir, pensar, mijar e morrer. Já quase perdendo a consciência promete a si mesmo aproveitar a vida enquanto esta lhe oferece o lado bom da moeda. Pensa em consumir ao máximo Constanza. O pau fica mole e ele dorme.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 8

Deitado na cama, por acaso olha o relógio do pequeno aparelho de rádio, desses que só toca AM/FM. São 11:58. Concentra os olhos ardidos na hora do radinho até que dê meia-noite. Quarto escuro, relógio aceso com a luz vermelha e os olhos com atenção nas horas. Carlos pode estar fazendo o que for, pintando, comendo, na rua, transando, que ao perceber que faltam apenas alguns minutos para mudar a hora, ele pára o que está fazendo para ver todos aqueles números virarem um monte de zeros. Mania que tem desde garoto. Meia-noite. Adormece tranquilo e satisfeito.

Batem na porta. Não atende. 15 segundos depois, batem novamente. Não atende. Quatro segundos depois batem com mais força. Não atende, mas perde o sono - Se bater outra vez eu atendo - pensou. Silêncio por longos dez segundos. Levanta, indeciso, se corre pra atender ou esquece. Caminha rápido até a porta, abre e não vê ninguém. Fica puto e vai à geladeira beber algo. Joga uma água no rosto, se alonga, grita pra trabalhar as cordas vocais e tirar a voz de loucutor de rádio, pega um cigarro, acende e vai pra varanda, acordar.
Sol na cara, olhos quase fechados, e a carne oscilante que se arrepia ao leve vento frio e queima sob calor do Rio. Trinta e quatro graus, dia de praia para muitos. Carlos se junta a exceção. Sábado é dia de trabalho. Mas antes vai tomar café na rua.

Um pingado, pão na chapa e o jornal do dia. Muita discussão de futebol entre os velhos sem camisa com pão na mão. Pede uma água após o café e acende um cigarro, o ambiente eufórico daquela padaria o agrada e esquece o mundo. Enquanto se questiona como o homem pode chegar a tal ponto da vida em que sua vida se resume em futebol, contas a pagar e cerveja, é rapidamente surpreendido com dois rapazes entrando correndo na padaria levando o que suas mãos eram capazes. Um, ainda cambaleante, com um pacote de pão para cachorro-quente e alguns pacotes de biscoito recheado o olha com a expressão de medo e desespero. O outro leva um refrigerante. Provavelmente o assalto fora forjado, e não improvisado. Um rouba a comida e o outro a bebida. Do silêncio mórbido tomado por instantes, só se houve os gritos do Pereira, dono da padaria, xingando os rapazes. Negros, sujos, rasgados, descalços e com fome. O ambiente fica um tanto pesado depois do acontecido, e Carlos aproveita para ir para casa. Em Santa Teresa e em quase todo o Rio de Janeiro é uma cena comum. Jovens moradores de rua assaltando algum estabelecimento ou algum indivíduo. Pensa, um tanto assustado naqueles jovens. Se eles não roubarem, como vão comer, se questiona aflito. Pedindo esmola, fazendo malabaris, vendendo drogas, enfim, cada escolha depende do tamanho de suas prioridades. Saciar a vontade da barriga ou a da cabeça. Comer ou ter o que todos têm. Pensando nos garotos e seu futuro incerto, foi abordado sobre o sol das onze da manhã.
- Me dá um cigarro? - Automaticamente pega o maço e retira um cigarro, sem reconhecer a voz de Constanza, juntamente com o isqueiro e oferece para a guria.
- O que houve? pergunta encabulada, com o olhar seco de Carlos.
- Ah, é você. Me desculpe, não tinha visto, talvez esse sol na cara...
- E aí, como você tá?
- Bem, quer dizer, mais ou menos, acabei de assistir um assalto na padaria alí e estou meio abalado.
- É, esses pivetes são fogo, não deixam a gente em paz. - Resmunga Constanza.
- Mas eles não têm culpa, é o mundo que os faz desse jeito.
- Ah... - Carlos interrompe para não dar continuidade àquela conversa, na qual viu a posição divergente da jovem menina e rapidamente muda o rumo da prosa - O que tá fazendo por aí?
- Passeando, e você?
- Nada também.
- Na verdade foi bom te encontrar, queria falar uma coisa contigo.
- Diga - Responde suando frio.
- Queria te pedir uma coisa, mas tipo, não sei se você vai querer, é que eu queri...
- Pode falar - interrompendo novamente.
- Então, queria que você me ensinasse a pintar.
- Olha, não sou professor, nem sei se realmente sei pintar, mas podemos ver isso.
- Ah que bom! Quando posso passar lá para começarmos?
- Quando você quiser, estiver disponivel, não tiver compromisso, enfim.
- Tá, vou lá hoje, daqui a pouco.
- Tá bom, te espero lá.


Carlos ao se despedir de Constanza na rua foi correndo para casa, arrumou a casa, preparou o material, ergueu o cavalhete, limpou os pincéis, procurou o lápis da sorte que estava desaparecido e acendeu um incenso. Sentando na poltrona ficou à espera de Constanza, olhando as nuvens isoladas no céu azul.
Ancioso, já sem unhas, começa a arrancar a pele do canto da unha. Alguém bate na porta. Ameaça levantar da poltrona para atender, mas finge não estar ancioso e espera bater uma segunda vez. Batem novamente e vai atender sem olhar no olho mágico.
- Boa tarde senhor, desculpa estar incomodando mas vim aqui até mais cedo, à mando de Dona Cinira para te avisar que de noite, lá pras sete horas, vamos fechar o registro da água pra concertar um vazamento da rua.
- Ah sim.
- Então seria bom que o senhor enchesse uns baldes para de noite, porque talvez amanhã a água demore a volta.
- Ótimo! - Responde irônicamente ao rapaz de barba por fazer e sem um dente.
- Ta beleza então, valeu!
- Valeu!
Quando já fechava a porta desiludido, vê Constanza subindo a escada de acesso a seu apartamento.
- Tava me esperando? - Sacaneando como sempre o jovem pintor.
- Não, é que veio um cara agora mesmo me dizer que vai faltar água. - Responde desajeitado.
- Sei, sei... Tava é aí plantado na porta a minha espera... - Rindo.
- Na verdade é isso mesmo, mas estava com vergonha de dizer... - Irônico.
- E aí, preparando para fazer de mim a nova Frida Kahlo?
- Ôh, também não é pra tanto. Vou te passar o que aprendi nas Belas Artes.
- Ta certo então.
- Quer uma água?
- Não, obrigada.
- Primeiramente vou te apresentar o material.
Enquanto mostrava os tipos de pincéis e suas específicas utilidades, da rua entra um som de tiro como se fosse a alguns metros dalí. Carlos assustado fica em silêncio esperando aquele som passar, igualmente fica Constanza, com os olhos um tanto arregalados. Eles estavam alí, em silêncio, e os jovens rapazes negros estavam agora rodeados de moradores, deitados no paralelepído quente com os olhos abertos. Alguns moradores deram graças a deus, outros lamentaram. Santa Tereza fora alvo do cotidiano das favelas do Rio de Janeiro. Mais dois jovens, entre outros muitos que são assassinados por tentarem sobreviver na selva de pedra.
- Acho que morreu alguém. - Palpita Cons olhando na varanda a movimentação na rua.
- Enfim, é foda. - Desabafa Carlos.
- Ah, pinta alguma coisa pra eu ver. - Pede Cons.
- Mas assim, do nada?
- É, vai lá!
Bastante tinta vermelha, com falhas, sem ser totalmente completada a tela, Sem secar, ainda fresca a tinta, traços brutos de tinta preta com um pincél fino. Traços que formavam aos poucos olhos e um nariz. Traços desleixados.
- Ficou legal. - Elogia ainda em dúvida a jovem guria.
- Não gostei.
- Ah que isso, ficou bom, muito bom.
- Achei negativo.
- É, meio pesado, mas ta bom.
- Enfim, vou guardá-lo.
Guarda a pequena nova tela e esbarra numa grande, dois metros por três, em branco. Ela cai no chão, em cima de algumas tintas. Constanza vai ajudar, recolhendo as tintas, junto com Carlos.
Com o pescoço ao alcance do nariz de Carlos, seu perfume o faz perder o controle, no qual o leva até encostar o nariz no cangote e inspirar aquele doce perfume. Ela se arrepia e larga as tintas sobre a tela no chão. Vira-se para Carlos e o olha nos olhos, com o olhar de sede, desejo, por exatos dois segundos. Não pestaneja e beija a boca maliciosa de Constanza, que por sua vez, o agarra, com suas unhas nas costas de Carlos e o puxa pra cima da tela. Como tanto desejava, segura em sua cintura e morde os lábio de Constanza, ouvindo um gemido um tanto tímido, e suspiros ofegantes ao pé do ouvido.
Com todo o envolvimento, a tinta é derramada na tela onde os dois se deitavam, e consequetemente, já semi-nus, se sujavam nas tintas azul e verde, perto da cabeça, e vermelha, nos pés e pernas. Pernas entrelaçadas e inquietas, que se esfregavam e misturavam toda a tinta que se apropriava do ato sexual.
Ela passava as mãos sujas de tinta azul sobre as nádegas de Carlos, apertando, arranhando, subindo até as costas, perdendo força, forçando ela a alisar e acariciar com o resto da tinta entre os dedos, as costas vermelhas de Carlos.
Suspirava e gemia como uma jovem que saciava todo o dejeso guardado a séculos. Um gemido jovem, fraco, ao pé do ouvido de Carlos, que sedento, mordia desde seu pescoço até o ouvido, perdendo totalmente o controle de sua língua, que agora se misturava com um pouco de cabelo, e que não o incomodava nem um pouco, assim como toda a tinta em seu corpo, nem o forte cheiro da mesma, nem o chão duro, nada. Transava aquela menina tão intensamente e ao mesmo tempo lentamente, que o suor dos corpos fazia com que a tinta se espalhasse pelo corpos e sobre a tela. Não percebiam, mas a noite já chegara, e os corpos nus ainda se entrelaçavam. Mais um quadro destruído e refeito, mas não um quadro qualquer. Uma tela onde o desejo manuseou aqueles dois pincéis. Ao gozar, os dois em sincronia, um desabafo era ouvido da rua. Gozavam o amor, gozavam o prazer, gozavam da arte em sua melhor representação. Dois corpos nus, totalmente pintados, totalmente saciados, totalmente íntimos.
Percebem o que acabara de acontecer e começam a rir. Gargalhadas sinceras de olhares puros. Correm para o banho. Ainda marcava 6:34, e segundo o banguela, eles tinham vinte e seis minutos para tirar toda a tinta e suor. De tudo aquilo, estava lá deitado no chão as marcas do amor. Último banho das próximas 24 horas. Primeira tela das próximas milhares do mesmo tipo. Nascia não só um novo amor, nascia um novo artista dentro de Carlos. O artista que ele sempre escondia dentro de si.
- Amanha eu volto. - Disse Constanza, com olhos caídos e bocas próximas.
- Te espero, Cons.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 7

Três dias sem vê-la. O café é ruim, mas o cheiro logo de manhã lhe traz uma sensação de conforto, pois sente vontade de comer bolo de fubá. No peito a velha sensação de vazio. Copo vazio, maço vazio, geladeira vazia, barriga vazia, ninguém naquele ambiente, mente vazia.
Terça-feira, movimento na rua. Crianças voltando da escola, gente indo e voltando do trabalho, gente sem nada pra fazer, apenas caminhando. Carlos se junta a essa massa de ambulantes. A vontade de fumar lhe dá algumas ideias. Observar os pequenos detalhes da vida monótona e levá-las à tela. Começa a prestar atenção nos para-choques dos carros, nas caixas de correio das casas, nos gatos dos postes, nos pés sujos dos mendigos, boeiros entupidos, lixeiras clandestinas, panfletos pornográficos, lama. Compra cigarro, refrigerante e volta pra casa. Não quer desta vez se embriagar.
Molha o pé na tinta preta e pisa na tela deitada sobre o chão, depois faz o mesmo com a tinta marrom e amarelha. Pegadas em diversas direções. Acende um cigarro e observa aquelas pegadas alguns metros de distância da tela. Não gosta e guarda, ainda com tinta fresca, a tela num canto da sala. Desiste de pintar e senta na poltrona. Observa os palitos de fósforo no canto da varanda e volta a pensar em Constanza. Fica alí sentado, quieto, pensado na guria até pegar no sono e dormir.
Acorda com o corpo dolorido, com as costas surradas pela poltrona. Se alonga, toma um banho e vai à rua passear. O dia de sol, céu azul, gente na rua. Quarta é dia de feira. Não compra nada, apenas gosta de ver o colorido das barracas. Verduras, legumes, frutas, peixes, carne, ervas, grãos, raízes. Se satisfazendo naquela rua de vegetais e cores vivas, cheiro de peixe e mato, se esbarrando nas senhoras de lenço na cabeça e olhares cansados. Come um pastel de carne com caldo de cana. Volta pra casa com algumas compras, pois hoje é noite de jantar a dois. Carlos e suas divagações.
Põe a água pra ferver, óleo e sal. Puxa um blues do Rei.
-Tudo vai mal...Tuuudo! tudo é igual quando canto e sou mudo - Arrisca Carlos fazendo ecoar sua voz na sala sem móveis.
Cortando a cebola, cantarola a música. Seis e trinta e cinco da noite, nem calor nem frio. Coloca o macarrão na água e vai cortar o tomate. Concentrado, as vezes esquece de cantarolar e fica um silêncio desconfortável, como se a sala vazia pedisse uma música, mas o que se ouve é somente o barulho da faca cortando agora o pimentão na tábua de madeira. Meche o macarrão fervendo e volta a cantarolar.
Lembra que esqueceu de comprar vinho. Abre a geladeira pra se certificar de que não havia vinho alí, e vai bater o alho. Diminui o fogo do macarrão, pega dinheiro, chaves, camisa no ombro e desce correndo até a padaria do português chato pra comprar um bom vinho, antes que cozinhe demais o macarrão, ou até mesmo exploda sua casa.
Quando já de volta, procurando desesperado, no molho de chaves, a da porta, com o vinho debaixo do braço, o macarrão já está bom. Desliga o fogo, procura uma outra panela para o molho, suspira. Coa o macarrão, lava com água fresca, lava a panela do próprio, seca e coloca novamente no fogo, desta vez com alho no óleo, já um tanto dourado. Coloca o macarrão na panela e mexe. O cheiro tá bom.
Alguém bate na porta. Antes de ir abrir, dá uma mexida no macarrão.
- Por acaso você só bebe vinho? - Constanza com vestido florido e seu decote ousado, para uma guria de seios pouco voluptuosos, para delírio contido de Carlos.
- Ah você... Entre!
- Que cheiro bom é esse? Além de faxineiro é cozinheiro também?
- To fazendo um jantar.
- Huumm, então tem companhia?
- Acabou de chegar.
- Isso é um convite? Acho que nunca me chamaram para jantar.
- Pode-se dizer que sim. Depende de você.
E quando Carlos já estava prestes a gozar de alegria, sua euforia acabava alí, com o macarrão quase queimando no fogo.
- Hoje não posso, vou embora já já. Tenho compromisso.
Sem deixar mostrar seu abalo, suando frio. - Ah, tudo bem - Sente um alívio por não mostrar descontrole.
- Boa sorte no macarrão - caminhando até a porta, de costas.
- Ha, vou precisar. - Brinca e olha nos olhos de seu carrasco.
- Tchau. - Sai pela porta sem a resposta de Carlos. Resposta na qual fica guardada em seu peito.
Mais uma noite chata. Mais uma noite de divagações, somente divagações. No peito a velha sensação de vazio. Desta vez copo cheio, barriga cheia, geladeira cheia. Mais uma noite sem Cons.
- Tchau.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 6

Acordar cedo é uma ótima iniciativa para se ter um bom dia, pensava Carlos. Quando acordava cedo, por mais cansado que estivesse, tinha o corpo mais bem disposto, a mente fluía. Acordou dez e meia da manhã, se preparou e foi para a praia de Copacabana. Não era pervetido, mas gostava de olhar as meninas de topless expostas ao sol quente. Depois da Lapa, Copacabana é o lugar onde atrai gente de todos os tipos. Prostitutas, travestis, gays, traficantes, religiosos, empresários, artistas, pagodeiros, intelectuais, negros, brancos, índios, estrangeiros, gente que sabe e não sabe nadar, enfim, pessoas de todos os tipos, raças, crenças, profissões, além de pessoas como Carlos, que gostava de admirar outras pessoas.
Após aproximadamente uma hora caminhando pela orla, debaixo de um sol escaldante, depois descançou três horas num quiosque as pernas doloridas. Foi de encontro ao mar, mas antes escolheu entre as milhares de pessoas deitadas nas cangas coloridas, alguém que aparentava ser de boa índole e deixou sua carteira enrolada na camisa. Refrescou a carne quente, misturando o suor salgado à água salgada do mar sujo daquela praia. Só conseguiu ver uma moça de topless, e nem achou tão legal assim. Voltou para a orla, caminhou um pouco mais devagar por alguns metros e sentou-se em outro quiosque, desta vez para comer algo. Depois de uma leve refeição, fumava e olhava o mar. Aquelas crianças eufóricas, pulando e se jogando contra as ondas, as mães os chamando, o salva-vidas que era admirado pelas senhoras descontentes com o casamento, as meninas que coravam suas peles para a noite, os rapazes do vôlei, o vendedor de picolé. Quem o visse dessa maneira, fumando e olhando o que tinha em sua frente, logo imaginaria que estivesse refletindo sobre sua vida, mas sua vida passava longe de sua cabeça, quando pensava na vidas daquelas pessoas. Analisava todos e esquecia-se de tudo. Já anoitecia quando decidiu tomar rumo a outro lugar. Já não estava calor, e nem estava tão cheia a praia.
andava por entre os prédios, quando encontrou um boteco. Parou para tomar uma cerveja e ouvir conversa de bêbado. Boteco clássico. Balcão, dois atendentes do lado de dentro, prateleira de vidro, máquina de café amassada, garrafas de cachaças desconhecidas nas paredes, uma televisão com interferência passando a novela das seis, e alguns homens jogados naquele pedaço negativo do bairro. Um deles embriagado e provavelmente sem dinheiro, olhava a novela sem vê-la. Pensava na vida, ou talvez nem vida tivesse para pensar, lembrar, refletir, e só estivesse vendo a novela. Os outros em companhia de outros bêbados. Quando já se via no caminho curto da embriaguez, avistou um homem de aparência depressiva. Jaqueta jeans, cavanhaque, cabelo curto e grisalho, olhos amarelos, peito magro e fundo escondidos pela camisa preta surrada. O sujeito era viciado, tava na cara. Era elétrico, coçava o nariz com frequência e tinha o olhar penetrante, como se quisesse agredir quem o encarasse. Carlos disfarçava e olhava aquele sujeito estranho. Tinha também um pouco de receio de que o cara pudesse perceber e tirar satisfações com ele, mas não conseguia parar de observar a atitude daquele homem. O sujeito, trocou cochichos com outro sujeito estranho, pegou algo de sua mão e foi para o fundo do bar entrando no banheiro sujo. Alguns minutos depois saiu mais estranho, com olhos arregalados e muito agitado, porém Carlos viu no fundo dos olhos e nos músculos relaxados de sua face que o sujeito parecia estar satisfeito, tranquilo, apesar da euforia que apresentava. Carlos sempre havia falar dos efeitos da cocaína, que seus amigos contavam depois das festas, festas das quais Carlos não frequentava. Viu que o sujeito era viciado em cocaína e ficou impressionado. Pagou a conta e voltou pra casa. Como só tinha ônibus até a Lapa, e o bondinho já não funcionava aquela hora, foi para mais um desses hotéis aparentemente limpos do centro. Deu boa noite aos travestis da porta e foi dormir.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 5

Estou acordado às três da manhã. Lá fora ouço sirenes penetrando num silêncio tão delicado quando o desenho da lua nova no céu estrelado. Alguns minutos atrás ouvia London London do Caetano e agora ouço o silêncio. Minutos atrás bebia vinho, ouvia Caetano e me perdia no escuro dos meus olhos fechados. Agora presto atenção no silêncio da rua, olhando as paredes com vontade de vomitar. Estou pensando nela porra. Preciso fazer alguma coisa. Preciso voltar a viver, assim como vivia antes de conhecer ela. Fazer as coisas sem pensar nela, esquecê-la. Eu nem a amo, apenas quero comê-la. Amar é coisa de garoto. Não estou mais na quinta série amando a menina da oitava. Fernanda, como amava ela... Nem me dava bola! Cartas de amor e cantadas ensaiadas pra nada. Me deu um toco como se eu fosse uma coisa qualquer. Mas também, o que ela diria. "Não" é "Não" em qualquer situação. Alí vi que o amor não existia. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo... Acho que estou ficando louco, conversando comigo mesmo. Minha mente não pára. Será que tem algum momento em que eu não pense em nada? Foda-se. Estou com sono. Estou enjoado e com sono. Pra ser sincero comigo, eu queria ser amado como um dia amei Fernanda, mas sei que isso não existe de verdade. Na verdade eu não quero morrer sozinho. Eu quero a Cons. Constanza. Constanza. Constan... Constanz... Const...


Todas as Quintas à noite, Pedro, Dudu, Guga e Carlos se encontram no apartamento de Sandro, no Leblon, para beber cerveja e falar sobre futebol, mulher e trabalho, enfim, da vida. Desde que viu Constanza daquela varanda que Carlos não aparece na social, e depois de um bom porre sozinho em sua casa, decide reaparecer.
Bate na porta com um engradado de cerveja na outra mão e um sorriso na cara, Quando a porta é aberta, a festa é como se tivessem vendo a ressurreição de um amigo. Quem atende é Pedro, o amigo mais pobre dos cinco. Trabalha como supervisor numa empresa de telemarketing e ainda mora com a mãe. Guga é ator e vive do dinheiro do pai. Dudu é gerente de uma empresa de carros importados na Barra da Tijuca e Sandro trabalha numa produtora de filmes trash. Carlos dá a cerveja para Pedro por na geladeira enquanto vai abraçar o resto da rapazeada. A noite vai ser longa.
Dudu instala o videogame na tevê e fala sobre o novo jogo de futebol que comprou, mais atualizado e com melhor gráfico. Pedro encostado na porta da cozinha com uma cerveja na mão conversa com Carlos sentado no sofá ao lado de Guga, que enrola um baseado, enquanto pergunta por onde esteve todo esse tempo:
- Aconteceram muitas coisas e ao mesmo tempo nada. - Responde Carlos.
- Porra! Como assim? - Pergunta encabulado Pedro.
- Conheci uma guria.
- Sabia que tinha mulher envolvido nisso! - Interrompe Sandro, sentado ao chão fumando um cigarro.
- Que mulher é essa? - Pergunta Guga passando em seguida a língua no baseado.
- Uma vizinha minha lá.
- E ae? - Questiona excitado Dudu com os controlhes do videogame na mão.
- Ainda não rolou nada demais. Apenas umas prosas, mas a mulher ta me tirando do sério.
- Então deve ser gostosa... - Palpita Pedro.
- Mas se tu ainda não comeu nem nada, por que tu sumiu seu viado? Como ta lá os quadros? - Acendendo o baseado, pergunta Guga.
- Tenho pintado uma coisa ou outra. - Responde Carlos
- O Carlos vai ter como ápice de sua criação o próprio caixão pintado por ele mesmo, vocês vão ver! - Brinca Dudu.
Dalí até às sete da manhã do dia seguinte, os velhos amigos mataram a saudade e ouviram as novidades de Carlos, jogando videogame, bebendo cerveja temperada com a maconha que Guga levara. Carlos se sentia como nos tempos do segundo grau, quando os mesmo matavam aula no aterro do Flamengo para fumar maconha vendo o Pão de Açúcar. Carlos estava feliz. Por um bom momento esquecia Constanza e se sentia leve. Amigos, o melhor anti-depressivo que ele conhecia bem.

sábado, 20 de junho de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 4

No vaso uma mistura de queijo semi-digerido e vinho e o cheiro de vômito que impestiava toda a casa. Bebera vinho chileno com queijo até as três da manhã na espera de Constanza.
Acordou, amarrou uma camisa tapando o nariz e foi pintar. Tela branca, começou a fazer listras pretas verticalmente sem qualquer sentido. Algumas mais pra esquerda, outras mais pra direita. De saco cheio de fazer aquilo, pegou uma pequena lata de tinta azul que estava no final e derramou sobre a tela e mandou aquilo tudo tomar no cu. Não gostava quando as coisas fugiam do controle. Era cético demais e pela primeira vez em muitos anos se sentiu sem controle sobre seus desejos, pois sempre que deseja algo, saciava aquilo o mais rápido possível e do jeito que queria, porém da noite que passou tomou seu primeiro tapa na cara. Decidiu limpar a casa.
Lavou o banheiro, separou as roupas sujas para a lavanderia e arrumou a cama. Passou uma vassoura na casa, limpou a cozinha inglesa. Trocou o jornal que forrava o chão da sala, onde pintava, jogou fora dezenas de latas vazias, pincéis, entre outras coisas velhas que auxiliava seu trabalho. Tirou a poeira da poltrona, abriu a janela, deu uma olhada 360 graus pela casa arrumada e se jogou na poltrona. Se não tinha bons quadros pintados, pelo menos a casa tinha que estar a seu querer. Cochilou.
Sonhou que tivesse caído de um barco direto no alto-mar. Havia uma boia com sino alguns metros dele, a boia que salvaria sua vida, mas não conseguia alcançá-la. Estava tudo muito escuro, e por isso não conseguia ver a bóia. Nadava em direção do som de seu sino, mas nunca conseguia chegar na bóia. Acordou ofegante e desesperado. A campanhia estava tocando, logo levantou-se rápido, receoso que a pessoa estivesse alí por muito tempo. Abriu a porta e deparou-se com um sorriso e um cheiro gostoso de bolo de fubá.
- Que cara é essa? - Brinca Constanza dando um peteleco em um pedaço de poeira que estava no ombro esquerdo de Carlos.
- Estava arrum...
- Faxina! - Interrompe o sonolento, e continua:
- Dúvido que tenha feito direito. Homens não sabem fazer essas coisas... Não vai me convidar pra entrar?
- Sim, claro! - Responde dando passagem para a jovem tagarela que entra num rebolado debochado como uma doce meretriz dos anos 50, deixando uma mistura de seu perfume de flores do campo com o cheiro do bolo.
- Até que me parece arrumada... Você é pintor? - Debochada por completa, novamente o provoca colocando o bolo sobre a divisória de tijolinhos da cozinha inglesa de Carlos.
- É... Sou artista plástico. E você, o que faz?
- Sou artista também. - Responde olhando delinearmente pela sala olhando os quadros.
- De qual manicômio?
- Como? - Pergunta levantando uma das sobrancelhas.
- Que tipo de arte você produz?
- Eu canto... - Voltando para os quadros, e continua antes que Carlos continuasse: - No chuveiro.
Novamente irônica, Carlos percebeu que além de provocativa, Conztanza gostava de falar. Era agitada, mas contida. Riu de sua piada com um sorriso de lado, mas no fundo achava muita graça de tudo aquilo.
- Deve cantar bem, tem uma voz bonita. - Jogou também uma letra, só para ver no que daria.
- Você se considera um bom pintor?
- Estou quase lá...
- Então eu canto bem. - Novamente alfinetou.
Carlos não gostou da piada, mas não queria perdê-la do alcance. Mudou a prosa:
- Ta cheirando bem esse bolo, de que é?
- Bolo comum. Fubá... é bom com café! Trouxe para você como boas vindas.
- Ah, muito obrigado, aliás, como sabe onde moro?
- Aqui todo mundo se conhece de vista... Perguntei na padaria e me disseram.
- Hum...
- Coma o bolo e depois me diga o que achou. Já estou de saída! - Se despede de forma fria indo em direção à porta quando Carlos interrompe:
- Calma! deixa que eu abro a porta, senão você não volta!
- Ah obrigada! - Arrancando um sorriso de Constanza.
- Eu que agradeço Constanza! Jovem Cons.
Ela sorri e sai. Carlos fecha a porta e sorri. Injeção de ânimo, de brinde sua janta em cima da mesa, depois de um dia sufocante.
Vai a cozinha preparar o café, seguindo o conselho de Cons.

Vermelho cor de sangue - Parte 3

Quando já colocava a chave na porta, olhou para o lado, lembrou passar na padaria, então abriu a porta, subiu as escadas até o segundo andar, abriu a porta suspirando forte, deixou as coisas que havia comprado e desceu.
Comprou queijo, pão, pasta de atum e um bom vinho chileno. Mercearia do seu João, um velho português bigodudo que resmungava e olhava a bunda das jovens meninas do colégio estadual que passavam por alí.
- Deu 53 reais meu filho. - Disse o português com seu sotaque lusitano.
- Aceita cartão? - responde Carlos com uma pergunta, dando tapinhas nos bolsos como se procurasse dinheiro.
- Aqui essas tecnologias ainda não chegaram, meu jovem, ainda bem! Ainda bem!
- Bom, só tenho cinquenta aqui comigo, posso pagar a diferença depois? Aliás, por que "ainda bem"?
- Tecnologia só vem pra complicar as coisas, não é Dona? - Pergunta para a moça que está atrás de Carlos, e continua: - Antigamente não tinha essas coisas de efeito estufa, furacões, ondas gigantes, aquecimento, que a tecnologia trouxe! Antigamente era simples e mais bonito de se viver. - Conclui o velho.
Antes que Carlos respondesse, a menina que estava atrás interfere: -toma aqui Seu João. Dando cinco reais para o velho portugês.
Carlos olha para trás e se depara com a jovem guria que tanto procurava, e três segundos depois que admirava aqueles lábios que tirava seu sono, responde: - Não, não precisa... - E interrompendo a rejeição dele, ela insiste: - Depois a gente se acerta.
- Se for assim, tudo bem. Muito obrigado.
- De nada. - Responde a jovem guria virando para suas compras e deixando Carlos perdido, sem saber onde olhar.
- Primeiro seu João que quem começou esse negócio de efeito estufa foi os seus avós, segundo que fucarão e onda gigante sempre teve, e se hoje em dia você tem conhecimento instantâneo sobre isso é graças a tecnologia, terceiro que a vida é bela! - Conclui Carlos pegando as bolsas de plástico no canto do caixa.
- Tens razão. - Responde Seu João não dando muita bola para Carlos e passando a farinha de trigo da guria pelo caixa.
Carlos sai da padaria bem devagar, alucinado.
- Qual seu nome? - Novamente a voz doce em sua costas.
- Carlos! - Responde sem saber quem pergunta, mas confiante de quem poderia ser.
- Prazer, Constanza!
- Nome diferente, italiano?
- Na verdade eu não sei meus pais nunca me disseram. - Responde a jovem guria em tom jovial.
- Como posso retribuir jovem Cons-tan-za? - Pergunta Carlos brincando com o seu nome.
- Esquece isso, se um dia eu precisar, eu te procuro.
- Enfim, tudo bem, comprei um vinho, se não tiver o que fazer hoje a noite...
-Pode deixar,eu apareço!

domingo, 24 de maio de 2009

Vermelho cor de sangue - Parte 2

Correu até a porta, parou e pensou. Só de calça, descalço, descabelado e sem camisa. Era assim que pensava em ir até a rua forjar seu encontro casual com a jovem guria. Por cinco segundos desistiu, mas o desejo já subia sua cabeça, e correu até o quarto peg a camisa que vestira ontem. Calçou um chinelo e pegou algumas moedas e a chave. Desceu.
Correr era pouco, logo pulava os degraus da pequena escada que o levava ao estreito portão e assim caiu eufórico na rua. Ela havia sumido em alguma esquina. Uma escolha errada e seria em vão toda a correria. No cruzamento escolheu a rua da direita. Caminhando rápido, fez a curva decidido e quando já ensaiava o que lhe diria, se deparou com a longa e triste ladeira vazia. À sua frente só portas e garagens. Muros de todas as cores, nenhuma garota. Ninguém.
Voltou para seu ateliê disfarçado de apartamento, ou vice-versa, e fumou um cigarro sentado no vazo. Olhando para o azulejo, pensando no nada, apenas olhando por olhar, pensando na guria. Saiu do banheiro, pegou um pouco de tinha vermelha e azul e jogou sobre uma tela limpa. Com a mão, esfregava toda aquela mistura na tela com uma certa raiva, decepcionado, e num estado fora de si, levou as mãos à cara. Foi ao banheiro, se olhou no espelho e riu. Se sentia um rapaz de 17 anos e achava graça de tudo aquilo. Entrou para o banho e foi atrás de algo para comer na rua.
Dava dez e meia da manhã no relógio redondo que tinha pendurado na cozinha, e Carlos comia um pedaço de pizza gelado que estava em sua geladeira, de três dias atrás. Comia e tentava se lembrar do sonho que tivera. Alguma coisa relacionada a fuga, lugares desconhecidos e visão embaçada. Sensação de medo ao acordar e boca seca, abria os olhos o máximo que podia, para tirar a sensação de estar cego.
Vestiu uma camisa pólo vermelha, pegou o bondinho sobre o sol de 11 horas e foi até o Centro do Rio para comprar mais material para seu ateliê, e aproveitaria, faria o que mais gostava de fazer quando um tanto deprimido, ver pessoas. A sexta-feira lhe dava uma sensação de que algo velho tinha ficado para atrás e, consequentemente, alguma coisa nova ele seria obrigado a conquistar. Sexta-feira em sua cabeça era sinônimo de mudança. Pensava nessa mudança olhando para o Cristo, de braços abertos, com o sol em sua face e sem fazer uma sequer careta. Deus não é careta, pensou. Tomou rumo ao 'amargo lar'.